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terça-feira, 30 de novembro de 2010

O menino dos cartuchos por Paulo Ghiraldelli


Durante o final de semana em que ocorreu a invasão dos locais onde estariam os traficantes do Rio, a única imagem de TV realmente digna do nome de jornalismo, entre todos os canais, foi a do menino sem camisa, descalço, catando cartucho no chão da favela não para brincar – o que já seria trágico – mas para vender no ferro velho. Sem dúvida, essa imagem não era para ser mostrada. Passou despercebida por algum editor, junto com o material de reportagem de um jornalista e de um cinegrafista que, contra a onda, ainda resolveram mostrar antes a realidade que a pseudo guerra entre mocinhos e bandidos que todo mundo mostrou.

Na figura do menino, estava a essência da favela e a base do que foi o tráfego na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, e do que ele voltará a ser, senão ali, em algum lugar perto. Ao contrário do que mostra a TV, não é o consumidor que cria o tráfego e o crime, nem mesmo é o traficante. O que cria o tráfego é o fato da droga ser ilegal e, junto disso, a causa que leva aquele menino a estar ali, procurando resto de bala para vender: falta de oportunidade na vida, inexistência de empregos competitivos e a falta de escola que tenham bons professores e que sejam atrativas,. Carência completa de assistência à infância.

No discurso oficial, o que se tem é agradecimento e mais agradecimento. A população dos locais invadidos do Rio, por apoiar a polícia, agora é louvada. A polícia e a Marinha são louvados. O BOPE é agradecido por proporcionar o “Elite da Tropa 3 ao vivo”. As imagens com gente das favelas pedindo paz viram passaporte para o Céu, na ânsia que os empresários e políticos do Rio de Janeiro têm de não comprometer os investimentos que já começaram para as Olimpíadas e Copa do Mundo. Mas, o menino sem camisa, sujinho, que vai levar para o ferro velho o resto das balas, não dá prestígio para ninguém. Pobre é bom aparecer na TV louvando o Estado, não reivindicando e muito menos mostrando em que pontos o Estado ainda falha e os cantos em que governo não dá a atenção devida. Pobre é bom quando é mostrado pendurado no telefone e dedando às vezes seus próprios parentes para a polícia.

O menino disse ao repórter que poderia ganhar talvez de cinco a vinte reais com os cartuchos. Deve ter levado um pouco mais de uma hora para catar aquilo. Portanto, tiraria bem menos que o tráfico lhe pagaria para transportar a droga. Tiraria mais ou menos o preço do “boquete” na rua, feita por prostitutas semi-profissionais. Todavia, sua perspectiva de ganho é bem maior do que uma professora, pois esta recebe em torno de sete reais a hora de aula – é isso que o Brasil paga para quem trabalha na escola pública. Quem iria dar aula na favela por sete reais? Alguns abnegados e, certamente, a escória daqueles que, de algum modo, conseguiram um diploma de professor.

A realidade do Rio de Janeiro não é diferente da de outras cidades. Aliás, o Rio nem é mais violento que outras capitais. Mas, quem faria um filme em Vitória ou Teresina? É preferível fazer no Rio. Tiros perto da praia e nos complexos de favela são filmes que podem concorrer ao Oscar. Não estou dizendo que “Tropa de Elite 2” é um filme mistificador, “meramente comercial”. Ao contrário. É um filme altamente esclarecedor e verdadeiro, assim como o livro Elite da Tropa. Todavia, as imagens desse tipo de filme e da TV preferem o cenário do Rio, ainda que o Brasil esteja, por inteiro, carunchado antes pela corrupção de órgãos estatais – e a polícia é um desses órgãos – que realmente infestado de bandidos. O filme mostra o que tem de mostrar corretamente. Mas, o cenário é realmente comercial. Caso exista uma espetáculo que ganhou passaporte para ser apresentado, é o da “guerra contra o tráfico”. É a parte não importante do filme e, enfim, é a parte que a TV mostrou no final da semana – nas ruas. É o que dá mais “ibope”.

O interessante seria ver, daqui a um mês exatamente, o governador do Rio vir à TV para dizer que, junto com as tais agora tão famosas e salvadoras UPPs, os lugares “recuperados pelo Estado” terão frentes de empregos competitivos e boas escolas, e que os professores dali terão maiores salários que em qualquer outro lugar, relacionados a um aumento salarial geral significativo. Seria interessante, junto disso, ver o governador anunciar também a ampliação dos salários dos policiais e, enfim, dizer seus planos a respeito de uma triagem dos bons e dos corruptos. Seria interessante ver o governo Federal, junto, falar a respeito da impunidade em relação aos políticos envolvidos nos esquemas de segurança que lucram por serem responsáveis antes pelo deslocamento do tráfico do que pela solução do problema. Aí sim estaríamos realmente usando da motivação da Copa e das Olimpíadas para um rumo certo. Esse tipo de ação mostraria um governo, no plano estadual e federal, disposto a fazer justiça ao que há de humano na favela, espelhado no menino sem camisa que virou uma ponta nas reportagens.

Agora, o resto, a briga de mocinho e bandido regado por demagogias de plantão que assisti neste final de semana em discursos oficiais, todos nós podemos dispensar. Afinal, é isso que é a verdadeira droga – é esta que realmente vicia e desencaminha a sociedade.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Política o que é isso? Por Paulo Ghiraldelli


Dizia meu avô que a política é “a arte de engolir sapos”. Nem a ciência política nem a filosofia política conseguiram uma melhor definição. Podemos comer rãs. Os que são diferentes de mim, os carnívoros, podem achar a carne da rã saborosa. Mas, sapo, nem pensar, ele é venenoso. Portanto, “a arte de engolir sapos” não é fácil. Pode-se, com ela, ficar intoxicado rapidamente e morrer. Desse modo, a definição que meu avô gostava já dizia tudo sobre a política, ou seja, é uma arte perigosa, letal. Meu avô, ele próprio, experimentou essa definição. Ele morreu na política e exatamente por ter engolido sapo.

Dizem que a política e a guerra em tempos de paz. Pode ser. Pois, como a guerra, ela também mata. Ela exige aquilo que nós, os bípedes sem penas, achamos que é da nossa natureza, ou seja, a paciência e a conversação a fim que aquilo que se quer alcançar seja negociado, administrado estrategicamente e, então, obtido com o menor número de desgaste energético possível. Tudo isso parece ameno. Mas não é. A política é a brutalidade da paz. Mesmo quem convence e vence acaba pagando um preço, engole seus sapos e, portanto, nunca tem uma vitória absoluta. Um pouco de toxinas sempre são absorvidas. Elas podem ser acumuladas de vitória em vitória e, um dia, aquele que só venceu na política, morre dela. Morre de tanto vencer. A política é “a arte de engolir sapos” não só para um lado, mas para todos os lados envolvidos no que se está disputando.

O que se quer na política é o poder. O poder substantivo e o poder verbo. Encaminhar o bom governo de uma sociedade – eis a política. Mas, no desenvolver desse bom governo, ou seja, no comando do poder que implica no poder fazer, tudo tem seu jogo de forças, sua negociação, suas idas e vindas. Engole-se sapo de todos os lados. Às vezes todos os lados engolem tanto sapo que o poder fica vazio, ninguém entre os disputantes sobra para abraçar o poder e exercer o poder. Todos perecem intoxicados de veneno de sapo por todos os poros. Morrem.

Meu avô entrou em uma negociação política. Seu grupo havia perdido as eleições de sua cidade. Os novos mandatários, uma vez na prefeitura da cidade, queriam o comando do hospital municipal. No hospital havia os médicos que há muito tempo lá estavam, verdadeiros heróis. Iriam perder suas clínicas dentro do hospital. Meu avô entrou na negociação política, intermediando os desejos vindos de vencedores e vencidos. Esteve lá, entre o novo prefeito e os médicos. Mas ele próprio havia sido vencido. Sua condição de negociador, eternamente posta na cidade como um trunfo da própria cidade, estava enfraquecida. Ainda assim ele comandou a negociação. No meio da reunião, ele teve uma hérnia estourada. Segurou a hérnia com a mão e procurou suportar a dor. Manteve-se ali na reunião, até o final, seis horas depois. Conseguiu seu intento na negociação, mas, no dia seguinte, morreu de enfarto. O sapo foi grande demais. Pagou com vida aquela eleição de 1975 para 1976. A política é a barbárie civilizada. É a guerra brutal em tempos de paz.

Pensar politicamente é, portanto, pensar em como guerrear sem dar tiros e, sim, empurrando sapos goela abaixo do adversário que, enfim, é visto como aquele que quer o poder substantivo e o poder verbo de modo absoluto. Ao mesmo tempo, nessa batalha, o que se deve fazer é saber engolir sapos de modo a poder cuspi-los quando o veneno acusar perigo. Mas, isso é difícil.

Não há vencedores na política, quando observamos os contendores imediatos. Vence na política os que usufruem dos benefícios do poder fazer após o bom governo se efetivar. Vence o grupo maior, o terceiro grupo que é, enfim, a população, que recebe os benefícios da administração da cidade, o bom governo. Os envolvidos diretamente com a conquista do poder substantivo a fim de empurrar as coisas por meio do poder verbo, não vencem nunca. Dos dois lados, os envolvidos diretamente, só perdem. Pois não se faz o outro engolir sapos sem também engolir a sua quantidade. Ao final, os dois lados estão envenenados. A política é a guerra da paz, a guerra lenta, surda. É o consumo dos sapos que vão soltando os seus venenos pelo estômago e pelo intestino, contaminando todos os corpos dos contendores. Sapos são altamente venenosos.

Pensar politicamente é pensar em função de ter o poder substantivo para ficar com o poder verbo. É pensar em como engolir menos sapos do que aqueles que se pode fazer o adversário engolir. Todo grande político sabe muito bem que a política é isso. Portanto, todo grande político sabe que não sairá vivo da política. Eis a razão pela qual a política e a guerra se casam, uma é a extensão da outra. A diferença é que na guerra morrem os que não fazem política, enquanto na política sofrem todos, às vezes, mas morrer, mesmo, só os políticos. Não há grande político que não saiba que ele irá perder a vida, cedo ou tarde, por conta dos sapos.

Só escapa de engolir sapos, entre os grandes políticos, aquele que, em determinado momento, opta pela guerra, ou a guerra do outro ou a sua própria guerra. Esse político morre na guerra. Ele toma a morte nas mãos, opta por morrer com data marcada. Os que optam só pela política, morrem sem saber quando vão morrer, pois os sapos não dizem exatamente quando a taxa de veneno será a fatal.

A política é a negociação associada ao pensamento estratégico em função do governo da cidade que, enfim, deve ser o bom governo. Portanto, pensar politicamente é pensar em termos de como encaminhar melhor uma negociação para que, ao final, tudo culmine no bom governo. O alvo é o poder substantivo e o poder verbo.

Pensar politicamente é pensar a negociação como um dispêndio de energia inevitável. É a morte inevitável. Pois essa energia é calculada pelo número de sapos que é possível de ser ingerido e, também, pelo número de sapos que se pode fazer o outro ingerir em um determinado espaço de tempo. A política é “a arte de engolir sapo” porque ela é a atividade da contrariedade. Quem não pode ser contrariado não pode pensar politicamente e não pode fazer política – não deve. A política só cai como luva para aqueles cujas mãos são do tamanho das luvas, ou seja, para quem se ajusta no tempo e no espaço para engolir sapos. Quem tem estômago fraco, não faz política.

Quando que alguém não pensa politicamente? Quando alguém faz política sem pensar politicamente? Quando se quer o poder substantivo em função de ser ter o poder verbo sem querer engolir sapo. Pensar politicamente é pensar com a garganta. É necessário saber engolir sapo e saber expelir. É necessário saber o que se suporta de contrariedade, se há como fazer o adversário engolir mais sapos ainda e ter uma boa visão do quanto ele suportará isso. Quem sabe isso, já está na metade do caminho de ser exímio engolidor de sapos, grande fazedor de política, hábil na capacidade de pensar politicamente.

Pensar sociologicamente é pensar a partir da perspectiva da sociedade. Pensar filosoficamente é pensar a partir da perspectiva da razão. Pensar politicamente é pensar a partir da racionalidade instrumental associada ao tanto de sapo que se pode colocar no estômago. Pensar politicamente não é pensar pacienciosamente. É pensar pacienciosamente quando se tem de pensar pacienciosamente. Mas é ser intempestivo quando se tem de sê-lo. Ou seja, a política é arte – arte de engolir sapos. Não é engolir sapos, simplesmente. É a arte de assim fazer. Não se trata de tragar para dentro tudo que é sapo. Trata-se de pegar os sapos e abrir espaço para que adversários também venha a engolir os seus. A política é um toma-lá-da-cá – de sapos!

O jogo de “dar e fornecer razões” tem a ver com as justificativas que estão no âmbito da filosofia e da sociologia. O jogo de “dar e fornecer razões” não pertence à política. Na política troca-se o jogo, pois tudo gira em torno de sonegar razões e dar não-razões quando se tem força para tal, ou seja, quando se pode fazer o outro engolir o sapo. Pensar politicamente, nesse caso, é saber entrar em um jogo de forças não para estourar com ele, mas para ficar nele. O melhor político é o que pensa politicamente, ou seja, o que fica no jogo político porque seu pensamento se desenvolve naturalmente no tempo desse jogo que, para outro, seria sufocante. Entra-se nisso para ficar. O que pensa politicamente nunca pensa em sair do jogo. Não poderia mais viver sem o veneno que consome diariamente, vindo dos sapos. Quem pensa politicamente está sempre viciado na política. Pois, antes de matar, o veneno vicia. O veneno do sapo é um tipo de droga. Pode ser uma droga alucinógena.

A alucinação que essa droga provoca é necessária, pois é a alucinação de que podemos nos entender na obtenção do bom governo. Sem essa alucinação, somos bem piores.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ

FONTE: http://ghiraldelli.pro.br/

terça-feira, 20 de julho de 2010

Os Dez Pecados do Professor (universitário), por Paulo Ghiraldelli Jr.


1. Fim da aula expositiva original. Há professores universitários que se esqueceram que são antes produtores que reprodutores do conhecimento. Professores assim abandonam a aula expositiva em que deveriam apresentar uma tese original e a substituem por seminários dos próprios alunos que, não raro, resultam apenas em forma sofrida de empurrar a aula. Isso não quer dizer que o professor, na graduação, deve dar aula de sua dissertação ou tese e, sim, que ele deve ter um discurso próprio até mesmo sobre o assunto dos cursos básicos. É isso que torna a aula válida e importante, caso contrário o aluno poderia simplesmente dispensar a aula em função do livro. O professor que não tem um discurso original faz o aluno duvidar da utilidade da aula e, então, resta a esse professor segurar o aluno em sala por meio da coerção da caderneta de presença, o que é mais que lamentável.

2. Doutrinarismo. Há professores que não conseguem distinguir entre o discurso meramente doutrinário e o discurso útil à ampliação do conhecimento do aluno. Em nome da não neutralidade do seu discurso, torna-se incapaz de distinguir entre o discurso com razões explícitas e bem concatenadas e o discurso com denúncias vazias, razões toscas ou nenhuma razão, preenchido por frases dogmáticas. O doutrinarismo, de qualquer tipo, é o começo do fim do ensino superior. Onde ele impera, a universidade acaba.

3. Excesso de avaliação. Há professores que não ensinam, apenas avaliam. Seus cursos são, na verdade, um conjunto de provas ou, então, um excesso de informações que só ganham significado pela existência da prova. Trata-se não de um curso para a aprendizagem e, sim, de um curso para se esmerar na “arte de fazer exames”. É interessante que quanto mais avalia, esse professor menos se avalia.

4. Burocratismo e avalanche de atividades. Há professores que tudo que tocam transformam em burocracia. Exigem a presença na aula, mas de modo burocrático. Exigem a entrega de mil e um trabalhos, mas todos eles só servem para fazer o aluno não estudar, não criar, não se desenvolver, pois são meros instrumentos burocráticos para deixar o aluno ocupado. Esse é o tipo do professor que não tem a mínima noção do que é o conhecimento, ele não sabe que o conhecimento é irmão gêmeo do “período de maturação”. Excesso de atividades pode antes tirar o aluno do estudo que colocá-lo em uma situação de reflexão e amadurecimento. Em um curso universitário em que a maioria dos professores age assim, o melhor que o aluno tem a fazer é sair e procurar uma universidade melhor.

5. Não problematização. Encontramos professores que expõem tudo de modo liso, como se não existissem problemas a serem resolvidos no âmbito do assunto que ministra. Para esse tipo de professor o conhecimento é um conjunto de enunciados que se sobrepõem, e não uma guerra de teorias e verdades que, não raro, cria mortos e feridos definitivos. Para esse professor, o conhecimento é alguma coisa da ordem do acúmulo e não da maravilha da aventura. No máximo, esses professores colocam questões e perguntas, mas são incapazes de trabalhar com um problema efetivo junto com os alunos. Um curso em que o estudante não se defronta com problemas reais que ele tem de resolver pode ser tudo, menos um curso universitário.

6. Falta de curiosidade. Muitos professores reclamam da falta de curiosidade dos alunos pelo assunto de seu curso quando, na verdade, eles próprios não possuem nenhuma curiosidade por tal assunto. O professor universitário deve expor os problemas da sua disciplina, em especial os problemas que encontraram soluções, ainda que não definitivas, mas também deve tentar mapear para o aluno os problemas que permanecem em aberto. Entre esses últimos, alguns podem, sim, ser abordados em nível de graduação. Muitas vezes, são os casos que podem ser abordados na graduação os mais próximos do cotidiano e que chamam o aluno para várias formas de laboratório, segundo as especificidades de seus cursos. O professor deve ter curiosidade por eles e fomentar tal curiosidade no estudante. Caso não consiga isso, talvez seja interessante verificar se não está na área errada ou mesmo na profissão errada.

7. Opinião cristalizada. Encontramos um tipo de professor que conversa muito e deixa o aluno participar da aula com inúmeras perguntas. Dá a impressão de ser um professor aberto. No entanto, às vezes nada é senão um professor extremamente fechado, pois é incapaz de ver que, em determinado nível, o diálogo só ocorre verdadeiramente se a possibilidade de mudar de opinião se verifica. Ele dialoga muito, mas não oferece razões para o aluno mudar de opinião. Inversamente: quando posto na parede e se pega sem razões para argumentar, ainda assim não muda de opinião. O professor universitário que não muda de opinião não serve para o ensino superior. A universidade só é boa se ela cria sem medo o espaço do erro do aluno e do professor, incentivando-os a mudar de posição ou, ao menos, procurar boas razões para não mudar.

8. Fuga da discussão com os pares. Há professor universitário que nunca consegue conversar com os colegas a respeito do assunto que pesquisa ou trabalha. Conversa de tudo e, sobre assuntos burocráticos da universidade, sabe tudo. Todavia, é incapaz de viver o seu assunto de aula e de pesquisa. Deste professor nenhum colega arranca qualquer opinião sobre conteúdos acadêmicos, embora possa conseguir sua opinião sobre todo o resto. Esse tipo de professor que não se envolve com seus próprios conteúdos que ministra e que, enfim, só é um intelectual em sala de aula, acaba por não ser intelectual em lugar algum. Não tem qualquer condição de se colocar como professor universitário. O professor universitário é um intelectual polemista também e principalmente fora da sala de aula, não só com os alunos, mas com seus pares. Ele escreve e fala cotidianamente sobre seu tema e a relação deste com o que ocorre no mundo. Quando não faz isso, está na profissão errada.

9. Nem scholar, nem erudito. O professor universitário deve ter erudição e, ao mesmo tempo, ser um scholar de determinado autor ou assunto. Não se pode ser scholar sem ser erudito no campo da cultura geral e não se pode ser um erudito sem ser um scholar. Só o casamento perfeito dessas duas condições garante o que deve ser o professor universitário.

10. Não presença nos corredores. O professor universitário não tem seu único lugar na sala de aula ou em sua sala ou escritório. Seu lugar é, principalmente, na cantina, nos corredores, nos espaços em que os alunos circulam. O professor que recusa o exercício do footing pela universidade para se deixar abordar pelos alunos e socializar suas experiências, atender alunos e criar um “clima” de polêmica e conversação cultural, não pode ser professor universitário. A universidade só é viva se nos corredores e nas cantinas fervilham discussões promovidas pelo erotismo socrático distribuído entre mestres e estudantes, o que os faz se seduzirem mutuamente. Fora disso, a universidades quase que se resume a um prédio morto – talvez um túmulo de cérebros.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Porque a coruja?


A coruja da filosofia é a Coruja de Minerva. Minerva é uma deusa romana. Seu equivalente grego é Athena.

A deusa Athena é a filha predileta do deus dos deuses, Zeus, e da deusa Metis, cujo nome significa “conselheira”, e que indica a posse de uma sabedoria prática. Athena não nasceu de parto normal. Zeus engoliu a esposa, Metis, para se safar do filho que, pensava ele, poderia destroná-lo, aliás, como ele próprio fez com seu pai, Cronos. O nascimento de Athena se dá de um modo especial: após uma grande dor de cabeça, Zeus teve sua fronte aberta por um de seus filhos, e daí espirrou Athena, já forte e grande.

Athena seria a protetora natural de Athenas, uma vez que estava ligada à idéia de cuidado com as habilidades manuais, com as artes em geral, com a guerra enquanto capacidade de proteção e, enfim, com a sabedoria, ou seja, tudo que deveria comandar uma cidade. Todavia, foi desafiada por Poseidon, que também desejava ser o protetor da cidade de Atenas. Os deuses em reunião decretaram que ficaria com a cidade aquele que produzisse algo de mais útil aos mortais. Poseidon fez o cavalo, Athena fez a oliva. A vitória foi concedida a Athena.

A disputa clássica na vida de Athena, no entanto, foi contra uma mortal – Arachne, talvez uma princesa, mas que aparece na mitologia como um tipo de doméstica. Arachne tecia muito bem, maravilhosamente, a ponto de dizerem que a própria deusa das habilidades, Athena, havia lhe ensinado. Mas Arachne negava tal fato e retrucava que poderia produzir uma rede muito superior a qualquer coisa que Athena fizesse. E assim desafiou a deusa.

Athena transformou-se em uma velha e foi procurar Arachne, para aconselhá-la a não desafiar um deus. Mas Arachne ficou furiosa e manteve seu desafio. E então veio o confronto. Ambas teceram rapidamente, mostrando uma habilidade incrível, e a própria disputa se fez de modo tão fantástico que parecia uma homenagem ao trabalho. No produto de Athena, as figuras tecidas mostravam os deuses, imponentes, mas desgostosos com a presunção dos mortais. No produto de Arachne, as figuras exemplificavam os erros dos deuses – tudo em forma de deboche. O resultado foi que Athena não suportou o insulto e se insurgiu contra Arachne. Quando foi para colocar fim na vida de Arachne sentiu piedade (piedade grega, não cristã, é claro) e a poupou, deixando-a viver como um estranho animal – a aranha.

Podemos ler esse mito como uma história para mostrar o surgimento da aranha, é claro. Mas, como sempre, fornece mais leituras: mostra Athena como compreensiva aos erros humanos: um deus que não fosse Athena não se daria ao luxo de virar uma mortal para, sutilmente, persuadir outro mortal de não insultá-lo. Assim, com tal característica, Athena era de fato a condutora da cidade de Athenas, que recebeu tal nome por causa dela. Inspirados em Athena, os cidadãos gregos daquela cidade aprenderiam a se comportar diante das leis urbanas, deveriam tomar as melhores decisões, evitar conflitos e se proteger, ordenadamente – inclusive através da guerra – contra inimigos externos.

A imagem de Athena povoou as mentes de alguns filósofos. Platão, ao falar de Athena, a tomou como protetora dos artesãos, ressaltando o caráter da deusa enquanto não somente uma guerreira e conselheira, mas efetivamente como aquela que, desde o momento que deu a oliveira aos mortais, estava preocupada em honrar a sabedoria prática, a habilidade de usar as mãos em articulação com o cérebro. Talvez Marx, ao falar que o pior engenheiro é ainda melhor que a melhor das aranhas, estivesse pensando, de fato, em Arachne. Mas certamente é com Hegel que Athena se imortalizou para nós modernos, finalmente, na sua ligação com a filosofia. É claro que predominou seu nome romano, Minerva. E mais que a própria deusa, a coruja ficou no centro da história.

A frase de Hegel, que diz que a Coruja de Minerva levanta vôo somente ao entardecer, alude ao papel da filosofia. Ou seja, a filosofia só pode dizer algo sobre o mundo, através da linguagem da razão, após os acontecimentos todos que, tinham de acontecer, efetivamente ocorreram. Antes que “prever para prover”, que é um lema de Comte e, portanto, do espírito cientificista, Hegel preferia dar crédito a uma postura filosófica que se via distinta da postura da ciência: a voz da razão explica – racionaliza – a história. Ou seja, depois da história, ela mostra que esta não foi em vão.

Quando dizemos, com William James, que cada filosofia é o temperamento do filósofo que a criou, podemos então caminhar mais um pouco e dizer que Marx e Hegel aparecem como os que melhor encarnaram a própria psicologia de Athena para tecerem suas filosofias. Marx e Hegel, cada um com sua própria psicologia, seus temperamentos, captaram o espírito de Athena para fazerem disso espelhos para suas filosofias. Pois, afinal, Athena detinha com suas duas facetas o espírito de suas filosofias: de um lado, Athena era a protetora de uma democracia de artesãos, de outro, a racionalizadora das decisões urbanas. Portanto, Marx e Hegel, em essência!

Mas sabemos que, de fato, o símbolo da filosofia ficou sendo a coruja, não Athena. Poderia ser outro animal, e não a coruja, o mascote de Athena? E como mascote da filosofia, o que indica?

A coruja não é bela. Platão era tido como belo, mas Sócrates era horrível. A coruja não é adepta de uma visão unidirecional, ela gira a cabeça quase que completamente, vendo todos os lados. Platão era adepto de uma visão unificadora, mas Sócrates era quase um perspectivista. Platão ensinava em uma escola que, muitas vezes, foi oficial. Mas Sócrates ensinava nas ruas. Foi acusado e condenado por seduzir os jovens, por roubá-los da Cidade, da Pólis. A coruja, por sua vez, é a ave de rapina par excellence, e apanha os descuidados – na noite. Os leva da cidade, para seu ninho. E então, dá para entender, agora, o que é que coruja e filosofia fazem juntas?

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Leia também em http://ghiraldelli.pro.br : Presidenciáveis, Ideologia e Ensino Técnico.

FONTE: ESCRIBA